quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Foto de grupo de feminino

Foto obtida talvez em 1947 na inauguração da escola de Justes (????)
Da esquerda para a direita:
Celina Silva, Cecília Silva Vieira, Angelina Vieira, Adelaide Silva, Emília Correia (?), Otília Silva, Marcília Vieira, AlcinaVieira

No 2º plano - Orlanda Fontes (entre Otília e Marcília)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Eras tu, sem seres

Fotografia: Manuel Cosentino.
Eras tu, sem seres, parada e demente na linha do tempo. Sem orientação, sem rumo, parada sem bagagem no apeadeiro da vida, dando-nos a grande lição da vida, a aguardar pacientemente a morte anunciada.
Fomos-te perdendo, anos antes, em cada olhar que se despedia de nós, como uma paisagem que se some no horizonte. Fingíamos não perceber e fazíamos contigo, planos para o futuro, sabendo que o futuro já tinha ficada para trás há muito. Não tínhamos l...
ágrimas, apenas surpresa e ansiedade por aquilo que ainda te estaria reservado, apelando todos os dias para a nossa força interior, que muitas vezes claudicava vertiginosamente. O desespero de não se perceber a demência. O desespero de não termos armas para lutar por ti. O desespero de em cada noite te tornares ainda mais distante e desconhecida de nós.
O entusiasmo, a lucidez, a autonomia e a perseverança que te caracterizavam, abandonaram-te tão cedo, que as manhãs poderiam ser tardes, e as tardes, as noites, como se a linha do tempo se tivesse subitamente tornado quebrada, por determinação de ninguém.
Eras tu, sem seres, apaticamente estacionada no tempo, e nós, plateia forçada dessa despedida dolorosamente injusta.
Bj mãe


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Defunto falecido



O defunto falecido      

            Há histórias que originam verdadeiros filmes, pois são invulgares e com conteúdo forte, tornando-se bizarras quando analisadas com sentido crítico. No Portugal profundo não há só as histórias populares da tradição oral, também há outras histórias que possuem a dualidade do real e da fantasia, capazes de dar algum contentamento a um realizador neorrealista.

 

            Conheci uma figura impar, já desaparecida, que assinou como autor de algumas histórias bizarras, e que, contadas e recontadas na 1ª pessoa, lhe pertencem do princípio ao fim. Com personalidade aventureira, habituado às adversidades da vida, capaz de imensas proezas inimagináveis, sem os valores bem aferidos, disposto a correr riscos e com uma linguagem pejada de asneiras cabeludas constantes... ele contou que, num momento da sua vida, entre diversas profissões ocasionais que desempenhou, fazia com um automóvel citroen “boca de sapo” com 4 vitesses para a frente, viagens entre Portugal e França, servindo especialmente os emigrantes portugueses, transportando-os ou realizando serviços legais e ou ilegais, dependendo do ponto de vista e do preço. Não era zarolho, mas corria riscos na mesma, sem grande responsabilidade e sem medir as consequências para ele e muito menos para os outros. Penso que a ilegalidade era o fato que lhe assentava melhor.

            Um belo dia deparou-se com o desafio de transportar ilegalmente um defunto falecido numa bidonville parisiense para Portugal, já que os familiares não teriam dinheiro para a trasladação legal ou nem saberiam como faze-lo. O transporte de um falecido envolve responsabilidade médica e jurídica, um processo burocrático enorme, e ter a bolsa recheada de dinheiro para fazer face às despesas. Os familiares tinham poucos recursos, apesar do carro em 2ª ou 3ª mão guardado para vir de férias au Portugal.

            Ele dispôs-se a faze-lo sem grandes complicações, recebendo logo à partida a remuneração combinada para lhe dar ânimo para a viagem. Recolheram alguns francos pelos diversos filhos, e apostaram as “fichas” todas nesta solução.

            Recolheu o defunto que tinha falecido há menos de uma hora, vestiu-lhe um fato preto, sentou-o e amarrou-o ao banco do passageiro do carro dele (ainda não havia cintos de segurança), apertou-lhe o casaco, colocou-lhe un chapeau e a gravata e rematou com uns vérres bem escuros. Arrancou para Portugal, um Portugal que ainda não era Europa, com a garrafa de bagaço no porta-luvas e os cigarros 3 vintes no bolso da camisa. A família seguia noutra viatura, à derrière..

            O defunto falecido portou-se muito bem, parecendo dormir o caminho todo. Pararam para dormir um pouco. Pararam para fazer as refeições – o farnel do arroz de frango e umas sandes de fromage. O defunto não teve fome, manteve-se sereno, abstémio e sempre com os seus óculos escuros, que ora lhe filtravam o sol, ora lhe filtravam o luar…parecendo dormitar. O queixo descaia um pouco e foi preciso reforçar o visual com um cachecol. Numa das fronteiras, os carabineiros, rodearam o carro, espreitaram, pediram documentos, interrogaram e respeitaram o sono do senhor adormecido. A família em pânico dentro da sua viatura, visualizando todas estas operações, rezavam pai nossos e avé marias à Nossa Senhora de Fátima, para que o defunto não fosse convidado a sair….

            O motorista aventureiro quando recontava a história dizia que o pior estava para vir.

            Entraram au Portugal com sucesso e chegaram à aldeia lá para os lados de Montezinho, onde a urna e a cova no cemitério já estariam abertas e toda a papelada tratada, pois previa-se o odor insuportável do final da viagem. De facto o pior estaria para vir, e que seria retirar o defunto do veículo que o acolhera ainda quente e por mais de 30 horas de viagem.

            O post mortem, a viagem, as fronteiras e o fumo do permanente cigarro 3 vintes do autor desta proeza, endureceram-lhe os músculos, os tendões, o comportamento e até a alma. O homem era grande, vinha bem encaixado entre a cadeira e o tablier, teso como um presunto, sem maleabilidade alguma para se retirar do veículo.

            - Então Galdra? como resolveste le problèm?

            - Ca, ca ....lho. (ele era gago) titive que que lhe partir as pernas! Q’até deu jeito para o meterem na urna, senão ela não fechava com as pernas dobradas.

            No final todos os ouvintes riam por imaginar o Gualdra com um martelo a fazer o desencarceramento do defunto dorminhoco.

            - Olha lá e se os Carabineros tivessem percebido e mandassem sair o senhor do chapéu?.

            -Ca, cara .... lho eu já estava a penpensar, pupu..a que pariu eu eu fingia que quia buscar os dodocumentos ao cacarro queque  nos seguia e fugia que nunnunca mais ninguém meme apanhava!.

            Pobres dos familiares, que pagaram bem e seguiram confiantes este aventureiro, que nem pensaria duas vezes em deixa-los a todos em maus lençóis.

            Um cromo esta figura!

            Digam lá se não dava um filme????!!!!!

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In” Estórias de um Portugal profundo” Anabela Quelhas

domingo, 19 de outubro de 2014

Elogio funebre (1912-2014)


Hoje  Justes ficou mais pobre

Ao virar os 100 cheguei a acreditar que ele era imortal e que a vida finalmente venceria a morte.

Os anos passando e a lucidez a trocar as voltas à demência, a vontade de viver ignorando as maleitas e os contratempos dos 70, dos 80, dos 90 e mesmo dos 100 anos. Acreditei sempre em mais e mais, convenci-me que continuaria assim eternamente

Não foi assim.

Um dos meus exemplos de dignidade e honestidade deixou de existir neste mundo  terreno.

Evocar Rousseau é muito pouco para referenciar um exemplo de vida, evocar César e Jesus não me conforta, nem me contém as lágrimas.

Adeus tio Alberto.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Aniversário de Matilde Correia



Hoje esta senhora faz 94 anos.
São 94 anos feitos de muitas histórias, conservadas numa memória fabulosa.
Analisa e profere com lucidez tudo o que se passa à sua volta. É daquelas pessoas que servem de modelo ao envelhecimento.
É minha tia e para mim é a minha terceira mãe.
Hoje D. Matilde Correia faz 94 anos, reunindo toda a família mais próxima à volta do seu bolo de aniversário, num sitio que se espera agradável e fresco, rodeado de flores que ela cuida extremosamente.
Parabéns Matilde!!!!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Análise de um quarteirão

 

Análise de um quarteirão por Anabela Quelhas

LOCALIZAÇÃO - Justes

Confrontações

Nordeste – Rua Dr. César Torres (caminho de Trás Celeiros)

Sudeste – Rua Dr. Otílio Figueiredo

Sudoeste – Rua da Pereira

Noroeste – Rua Alcides Boal

Implantação: Lotes rústicos e urbanos perfeitamente contidos entre os 4 arruamentos, em que os urbanos compõem uma “coroa circular” quase completa, portanto um perímetro fechado ao nível da construção, exceptuando o limite nordeste.  No limite nordeste havia apenas um caminho estreito de piso muito irregular, por onde quase ninguém passava, denominado Trás de Celeiros. A mancha de construção utiliza o artificio materializado pelo chamado passadiço, unindo este quarteirão para a malha urbana localizada a sudeste, em dois pontos. Um deles ainda sobrevive na casa dos Guerra. Existe também uma passagem superior de ligação entre habitações na rua Alcides Boal.

Área construída:

A massa construída forma uma frente contínua virada para a rua, fechando dentro de si os espaços de logradouro. Ao nível das ruas, o utente apenas visualiza as construções e uma ou outra reentrância.

Na área sudeste as construções desenham-se abrindo-se numa curva larga e côncava para acolher um solo granítico, denominado e com função de eira, incluindo também aqui um passadiço secundário. 

Algumas das construções estão datadas, integrando essencialmente os séculos XVIII e XIX.

Todas as construções são de granito, com coberturas em telha cerâmica.

Tipologias originais

Rua Dr César Torres – sem construções - topo aberto

Rua Dr. Otílio Figueiredo– 1 piso – lojas de animais e arrecadações; 2 pisos - R/chão (lojas de animais ou arrecadações); 1º andar (habitação). Utilização de 3 passadiços.

Sudoeste – Rua da Pereira – 2 pisos – R/chão (lojas de animais ou arrecadações); 1º andar (habitação)

Noroeste – Rua Alcides Boal - R/chão – 2 pisos – R/chão (lojas de animais ou arrecadações); 1º andar (habitação).

A maioria das construções apresentam alçados muito fechados para a rua, apenas com as aberturas essenciais e abrem-se para o interior do quarteirão, através de escadas abertas e varandas, acolhendo na traseira os espaços de maior vivência familiar e no desenvolvimento de algumas tarefas agrícolas.. Apresenta-se como excepção a casa dos Fontes (esquina da rua da Pereira e rua dr Otilio Figueiredo) e casa dos Condes (rua Dr Otílio Figueiredo).

Algumas habitações apresentavam ligações permitindo o acesso fácil entre elas e pequenos apontamentos de alguma erudição - salas com tecto de maceira, bancos de janela, armários embutidos, registo da era na porta principal, etc.  

Áreas não construídas (rústicas) – localizam-se no interior do quarteirão e são encerradas, fechadas para as ruas, excepto a nordeste. Denominam-se quinteiros e todos eles ligam-se âs habitações e arrecadações. Estes quinteiros possuem ou não pequenos muretes divisórios. Existe um caminho pedonal de consortes que atravessa em linha recta na direção noroeste para sudeste, sendo o eixo de ligação entre as várias áreas.

Os quinteiros e o eixo de ligação, permitem que se estabeleça uma fácil e rápida ligação entre as construções e entre as duas ruas opostas. No limite sudeste deste caminho existe uma ligação fácil para a eira.

Os quinteiros são explorados como hortas pontuados por árvores de fruto (pereiras, macieiras, cerejeiras)

Ocupação:

Todo este aglomerado pertencia a pessoas da mesma família: Palheiros, Forcado, Torres, Fontes, Guerra e Condes. Neste momento nem todas pertencem aos descendentes.

Integração no aglomerado de Justes:

Quem percorre as ruas da aldeia, não percebe toda esta estrutura que caracteriza o quarteirão em causa. As ruas dão continuidade à malha urbana, a linguagem arquitectónica está integrada e apenas os passadiços assumem-se como elementos invulgares. Porém este quarteirão é distinto do resto da aldeia, é ambivalente nas ligações, permite o isolamento e permite as ligações, o que lhe confere uma privacidade discreta em relação ao resto da aldeia. Provavelmente a maioria dos habitantes de Justes desconhecem esta situação e nunca presenciaram a vivência que se praticou em 3 séculos no seu interior.
 
 


domingo, 24 de agosto de 2014

CALDO DE FARINHA



 
Caldo confeccionado em Justes pelas melhores cozinheiras do antigamente, considerado uma verdadeira especialidade. Vi fazer algumas vezes à minha mãe.
 
Ingredientes:
  • farinha de milho branca
  • couve galega
  • água
  • azeite
  • unto
  • sal
  • carne de porco em vinha d’alhos
 
Confecção:
Numa panela com água a ferver, tempera-se com  de sal,  fio de azeite, unto e carne previamente temperada em marinada de vinha d’alhos. Junta-se couve galega segada (não muita quantidade). Deita-se então na panela farinha de milho que entretanto se desfez num pouco de água fria. Deixa-se cozer bem a farinha mexendo de vez em quando para não encaroçar. Caso esteja a ficar muito grossa, acrescenta-se mais água (a textura deverá ficar como a da papa Cérelac). Quando estiver quase pronta rectifica-se o sal e deita-se uma colher de sopa de vinagre (facultativo). Serve-se bem quente.
Receita de Rosália Palheiros e Matilde Correia
 

sábado, 23 de agosto de 2014

1ª guerra mundial (1914-1918)


Também temos os nossos heróis.
A propósito da 1ª Guerra Mundial (1914), da qual se comemora agora o primeiro centenário, pretendo realçar os nomes dos nossos combatentes que foram alistados nos grupos que combateram em:
 França: António Catarino, José Ribeiro e António Panelas.
Angola: Artur do Ferreiro e António Maria Machado (casado em Justes com Preciosa Palheiros)

Enquadramento histórico

O conflito mundial que envolveu as grandes potencias a nível mundial, que se organizaram em duas frentes:
-  Aliados (França, Inglaterra e Rússia)
- Impérios centrais ( Alemanha, Áustria, Hungria e Itália).

 Portugal participou nesta guerra ao lado dos Aliados.
Nos primeiros anos foram enviados soldados para as ex-colónias portuguesas, Angola e Moçambique, territórios ameaçados pela Alemanha, e posteriormente em 1917, os soldados portugueses foram enviados para Flandres.
A participação de Portugal neste conflito mundial envolveu a mobilização de 200 mil homens. !0 mil homens morreram, milhares ficaram feridos. Foi um esforço muito superior à capacidade deste país.
Dos homens mencionados de Justes, António Maria Machado era sargento, os outros não tinham qualquer patente.
Esta foi a guerra mais mortífera de todas. A vida nas trincheiras era dura (europa).
A trincheira era uma escavação linear no solo. As valas eram escavadas no chão pelos próprios soldados, com cerca de dois metros de profundidade e vários quilômetros de extensão . nelas milhões de soldados ficaram sujeitos à fome ao frio e ao medo constante da morte por bombardeios, granadas, tiros e doenças.

 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Os nomes e as origens


 
 
Tenho organizado os meus antepassados em 7 árvores genealógicas, para entender as ligações entre os seus elementos, pois percebi que existe uma malha complexa que une diversas famílias de Justes – os Quelhas, os Alves, os Palheiros, os Almeidas, os Correias, os Silva, os Boais e os Vieiras. Poderei afirmar que as pessoas nascidas em Justes há mais de 50 figuram nestas árvores.

A minha investigação vai até meados do sec XIX. Daí para trás, é um tempo e um espaço desconhecido. Analisando estas árvores parece-me que devo concluir que Justes era uma comunidade muito fechada, e que as relações familiares variavam essencialmente entre estas famílias acrescidas dos Fontes e dos Guerra. As famílias proliferavam na descendência e cruzavam-se entre si através do casamento. Este esquema consanguíneo de casamentos – casamentos entre primos mais ou menos próximos – era assim uma prática para aqueles que permaneceram nesta aldeia com as consequências mais ou menos gravosas ao nível da saúde desta comunidade.

A nossa origem é difícil de determinar com certeza e evidências. A minha investigação, a articulação do conhecimento que fui acumulando ao longo dos anos e as pessoas que fui ouvindo, levam-me a construir uma teoria apenas minha, sujeita a contestação e aberta a alterações.

Tal como uma parte da população portuguesa, seremos provavelmente descendentes de cristãos novos que se refugiaram em terras transmontanas, depois de perseguidos e expulsos de Espanha no séc. XV. Gentes que pretenderam ficar por ali esquecidos da inquisição, livrando-se da fogueira, mudando de nome e aparentemente assimilando novos costumes, tentando limpar o sangue.

Se consultarmos a listagem de nomes adoptados pelos cristãos novos, encontramos os SILVA, os CORREIA, os ALVES, os ALMEIDA, os VIEIRA, os FONTES, os GUERRA…. Curiosamente os QUELHAS não estão lá, os PALHEIROS e FURCADOS também não.

Os Quelhas segundo parece serão originários da zona da Catalunha e sul de França.

Os Palheiros e Furcados, eram um casal: Ana Maria Palheiros e Joaquim Alves Furcado.

Até há pouco tempo eu escrevia Forcado com o, mas recentemente descobri que os assentos de baptismo dos filhos deste casal, aparece sempre FURCADO com u.

O nome FURCADO, incompreensivelmente, extinguiu-se, permanecendo o nome PALHEIROS pela via matriarcal. Não me parece haver qualquer confusão nos registos. Este casal teve 10 filhos e em todos eles se eliminou o nome Furcado, parecendo assim que houve uma vontade assumida de o fazer.

Qual era o enigma dessa família que levou à eliminação do seu apelido?

O significado de Forcado

1.Instrumento agrícola formado por um pau terminado em dois ou três dentes compridos. = FORQUILHA

2. Quantidade de palha, feno, etc., que o forcado levanta de uma vez.

3. Tijolo largo e delgado, também chamado tijolo de forcado.

4. [Tauromaquia]   [Tauromaquia]  Homem que nas touradas faz as pegas, enfrentando o touro corpo a corpo.

domingo, 17 de agosto de 2014

DOMINGO DE FESTA 17 DE AGOSTO DE 2014


FESTA EM HONRA DE NOSSA SENHORA DE LURDES
 procissão

 
 
 
 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

MANUEL VIEIRA DA SILVA - o maçom


 
 
O meu bisavô, Manuel Vieira da Silva de seu nome, era maçom.

Situação oculta pela descendência, disfarçada pelos filhos e netos, redescoberta pelos bisnetos da minha geração, através de um documento sabiamente escondido num baú antigo de madeira e couro, desenhado em tachinhas amarelas e num vão falso, espaço difícil de encontrar.

Depois de abrir pequenos fechos, descobriu-se o mundo do maçom, através de um original da maçonaria do Vale do Lavradio.

 O ser maçom ou pedreiro livre foi motivo de humor, entre os bisnetos, ainda dentro daquele falso conceito associado, que ser pedreiro livre, era uma rebeldia, uma oposição feroz à igreja e ao poder instituído. Sociedades secretas são sempre o foco de atenção do nosso aventureirismo adolescente. Tudo o que é secreto desperta-nos, tudo o que é proibido atrai-nos.
 
PASSAPORTES
Entidade detentora
Arquivo Distrital de Vila Real
- Código de referência

PT-ADVRL-GCVR/H/D/010/1621/183
- Cota original
61
- Título
Registo de passaporte
- Datas
Vila Real, 07/02/1880
- Nível de descrição
Documento Simples
- Dimensão e suporte
160 x 220 mm.; Papel
- Âmbito e conteúdo
Requerente:
Manuel Vieira da Silva
Idade: 31 anos Lugar: Justes
Freguesia: Lamares
Concelho: Vila Real
Distrito: Vila Real
Destino: Brasil
- Localização
F. 46v

--------------

Entidade detentora
Arquivo Distrital de Vila Real
- Código de referência
PT-ADVRL-GCVR/H/D/010/1624/249
- Cota original
177
- Título
Registo de passaporte
- Datas
Vila Real, 05/03/1883
- Nível de descrição
Documento Simples
- Dimensão e suporte
160x210 mm.; Papel
- Âmbito e conteúdo
Requerente:
Matilde Alves Ribeiro da Silva
Idade: 28 anos
Lugar: Justes
Freguesia: Lamares
Concelho: Vila Real
Distrito: Vila Real
Destino: Brasil
- Localização
F. 63
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Manuel Vieira da Silva emigrou para o Brasil, no século XIX, ainda quando o Brasil se escrevia com z.
 BRAZIL.
Emigrou com a esposa, Matilde Alves Ribeiro da Silva, num barco a vapor. Ele primeiro, ela depois. Devem ter passado dias angustiantes a atravessar o oceano, em direcção a terras de Vera Cruz, amontoados com outros iguais, desafiando a fome, as pulgas e os piolhos, rezando para não apanhar uma doença mortal que os atirasse aos peixinhos. Mais de  um mês de miséria e isolamento levados ao extremo, onde abundava a promiscuidade, o roubo e a violência. Desembarcaram são e salvos em São Sebastião do Rio de Janeiro.
Um ano mais tarde, já negociante, ingressa na maçonaria brasileira.
 
 

A TODOS OS MMAC.: ESPALHADOS SOBRE A SUPERFÍCIE DA TERRA

S.:  S.:  S.:

O GR.: CAP .: GER.: DOS RITOS AZUES NO SEIO DO GR.: OR.: DO BRAZIL AO VALE DO LAVRADIO

MANUEL VIEIRA DA SILVA COM 32 ANOS, CASADO, NEGOCIANTE, é aceite como OPERÁRIO DA AUG LOJ COMMERCIO E ARTES DO RIO DE JANEIRO NO DIA 22 DO 4º MÊS DO ANO VL 5888

(31 DE MARÇO DE 1881)

Regressa a Portugal com a mulher tuberculosa e os seus 4 filhos: Belmira, Etelvina, Daniel e Albertino. Fez outras viagens entre os dois lados do oceano. O seu corpo jaz no cemitério da sua terra natal.

Esta é uma história com história, em outras histórias, de um ilustre desconhecido, redesenhada simbolicamente, por mim em cada triângulo, em cada pirâmide, em cada olho, em cada sol, em cada coluna, através do compasso e da régua, de arquitecta que sou, sem avental, mas com determinação e equilíbrio, procurando sempre e humildemente, o conhecimento.

In Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado, Anabela Quelhas



Grupo de bombos de justes

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

MAÇADOIRO



 

 
O cultivo do linho é uma arte ascentral, que na aldeia de Justes se extinguiu nos anos 60.  
O ciclo do linho envolve várias fases, transformando a planta em peças têxteis, belas, alvas e frescas.
Numa das fases do tratamento do linho, maça-se o linho, partindo o caule, separando a parte lenhosa da fibra. Essa operação é feita sobre uma pedra, utilizando um maço.
Ao fundo da rua da Pereira, existe um maçadoiro, cuja verdadeira utilidade se perde no tempo.
Na memória colectiva recente, o maçadoiro é uma grande peça de granito assente em duas bases do mesmo material, com altura ergonómica equivalente à altura do joelho, servindo para sentar.
Sentaram-se ali muitas gentes, ao longo dos dias e das noites, especialmente nas noites de verão, servindo de espaço para sentir o fresco das noites quentes de Julho. Serviu também para repousar o cansaço por quem lá passava e encontrava interlocutor.
É uma peça essencial que marca o eixo da rua e a intersepção com a rua das fontes.
É uma pedra calada.
As gentes nascem e morrem e o maçadoiro permanece. Permanece calado, testemunho de tanta conversa sentada, de gente cansada, de gente repousada, de gente triste e alegre, de gente humilde, de gente temerosa do deus e do diabo, mas cuja função se adaptou ao tempo de cada um.
Hoje o maçadoiro é pedra calada e solitária, com um ponto vermelho do seu lado esquerdo.
AQ

Histórias que se perdem na história


Histórias que se perdem na história

Entre 1947 e 1952, 5500 crianças austríacas foram acolhidas por famílias portuguesas. Fugiam da II Guerra Mundial. Com frio, com fome e com às famílias mutiladas pela guerra, procuraram dias melhores, sítios que as acolhessem. Talvez Portugal fosse o paraíso, ausentando-as da guerra e oferecendo-lhes um espaço que poderia ser pelo menos um intervalo dessa guerra.


JUSTES também acolheu uma destas crianças, oferecendo-lhe o conforto de uma das melhores casas da aldeia, a casa do Sr Silvino e Sra D. Amélia. Mas o melhor conforto era certamente poder brincar na rua, sentirem-se protegidas por todos, poderem comer e beber sem responsabilidades de maior e terem aquilo que todas as crianças precisam: amor e carinho.


Apenas sei isto, era um menino. A identificação dessa criança, e toda a sua história ouvia-a algumas vezes em criança, mas não retive detalhes.
Partilho aqui um texto que retrata um de muitos casos, certamente semelhante ao nosso caso de Justes.
AQ

“Nunca na vida Fini Gradischnig tinha visto uma banana ou uma laranja. Nem imaginava que numa terra mais a Sul da sua, a Áustria, houvesse gente a comer sopa fria de tomate. Muito menos imaginava um país em que as crianças pudessem brincar despreocupadas um dia inteiro. Filha da II Guerra, nascida no Inverno de 1941, um dos mais rigorosos do século, sabia bem o que era passar fome ou não ter pai – o seu “foi para a Rússia e lá ficou”. É tudo o que sabe dele.

Um dia, numa aula, um professor perguntou quem queria passar umas férias fora do país, em casa de uma família, que poderia ser portuguesa, espanhola, suíça. Fini Gradischnig tomou logo a decisão. Até porque gostou muito de uma daquelas palavras: Portugal (não sabia ainda que nunca mais se separaria dela). Tinha oito anos e tratou de tudo, até dos papéis para a viagem e de conseguir a assinatura da mãe. “Era assim, éramos muito mais independentes, também fruto daquele tempo horrível.”

Como Fini, outras 5500 crianças austríacas foram acolhidas, entre 1947 e 1952, por famílias portuguesas, num programa da Cáritas. Fugiam à destruição e à miséria do pós-guerra. Em Viena, entravam num comboio com destino a Génova, em Itália, onde eram esperadas por um barco que as levaria ao destino final, Lisboa, numa viagem raramente calma, quase sempre horrível. Levavam uma mala e, ao pescoço, um cartão com o nome, um número e o apelido da família que os iria buscar no destino.

Uma viagem dura


A viagem era dura. Demoravam uma semana a chegar. Eram centenas de crianças, muito juntas. Há quem conte que veio a dormir debaixo dos bancos do comboio. Alguns ficavam doentes durante esses dias, no barco quase todos enjoavam, incluindo os funcionários da Cáritas que as acompanhavam até serem entregues às famílias, já depois de um banho que tomavam logo à chegada.

Mas Portugal seria “o paraíso”, tinham-lhes prometido. E é assim que Fini descreve o que encontrou. Depressa as casas semi-destruídas em que viviam nas grandes cidades austríacas dariam lugar a outras que lhes pareciam enormes, em aldeias ou pequenas vilas espalhadas pelo país. “Tudo era grande e bonito, de mais para mim, assustava-me um bocadinho”, contou esta austríaca(…)

domingo, 6 de julho de 2014

terça-feira, 1 de julho de 2014

… quase a cairmos para o Oceano Atlântico


… quase a cairmos para o Oceano Atlântico

A história da liberdade ainda está por fazer e ela desmultiplicar-se-á por imensos relatos na 1ª pessoa, das vivências de cada um, criando uma imensa manta de retalhos que ganhará cada vez mais cor, diversidade e coerência. Sobre a descolonização há histórias de despedidas, duma viagem chamada ponte aérea e de outros viagens inacreditáveis, de um país para muitos desconhecido, da permanência em Lisboa em pensões e hotéis, da retirada para o Portugal rural e atrasado e do encontro de famílias, do desespero do recomeçar e até de outros rumos que alguns tomaram. São histórias sofridas e profundamente marcantes na cronologia de cada um.

….

                É uma casa de várias janelas, de várias varandas, de vários telhados, de várias portas de entrada, feita de outras casas e com passadiço sobre a rua, situação única na aldeia. Casa virada para duas ruas, de planta recortada, escondendo possibilidade de alojamento nunca antes imaginadas. É uma casa de vários chãos.

                Hoje é uma casa solitária e abandonada por muitos donos…. Talvez devoluta, seja a palavra certa para caracterizar esta casa de fim de rua e cruzamento de outra - casa com tanta história para contar, atualmente em coma profundo arrastando consigo as minhas memórias e as de outros que chegaram a uma aldeia rural para recomeçar a vida. Um coma de adormecimento quase letal, esconde imagens, pessoas, vivências aglutinadas entre paredes de granito e madeiras seculares, hoje arruinadas, expostas aos agentes atmosféricos e a outros pequenos invasores, tão inofensivos e tão letais. Esta é uma casa de ilustração de muitas histórias que ainda não foram narradas do pós-abril, nos anos agitados que se seguiram à revolução, quando Portugal rebentava pelas costuras com meio milhão de retornados e refugiados das ex-colónias.   

                Esta casa conhecida por casa dos Guerra e ou por casa dos Fontes, uma mistura que a genealogia se encarrega de explicar em detalhe, localizada no Portugal profundo e numa esquina qualquer de Trás-os-Montes, era o lar de 2 mulheres idosas e solteironas, que se habituaram a viver da ruralidade e na ruralidade dos anos 50 e 60, sem sobressaltos,  temperada com  pitadas de  algumas novidades da modernidade. Esta modernidade centrava-se essencialmente num grande rádio que nunca vi utilizarem, mas que compunha com dignidade uma grande prateleira, uma instalação sanitária completa com loiças negras e uma televisão, que era o motivo de orgulho destas irmãs. Não se importavam de partilhar o serão com vizinhos, pois tal objecto naquela época, rompia definitivamente com a solidão destas sexagenárias e abria-lhes uma janela para um mundo que não se vislumbrava das muitas janelas desta casa de final de rua. Este cenário era reforçado com uma grande varanda fechada com caixilharia de ferro, embrião das célebres marquises citadinas, onde existiam uns cadeirões de verga, e uma salamandra a lenha, permitindo algum conforto nas noites televisivas.

                As irmãs viviam de uma agricultura de subsistência, rentabilizando o leite de duas ou três vacas turinas e viveram alguns anos sem sobressaltos, entre o respeito silencioso às conversas em família do senhor presidente do concelho, proferidas na televisão e as  sonoras gargalhadas provocadas pelo o humor de  Raúl Solnado, cumprindo os seus deveres de católicas praticantes da santa madre igreja. Um dia seguia-se a outro, num ramerame que parecia eterno, pontuados pelas missas de domingo, naquela homogeneidade monocromática das rotinas rurais, entre solstícios e equinócios quase sempre iguais e pelas noites de tourada, onde os ânimos aqueciam, sempre divididos entre, “o coitado do toiro” e “o coitado do forcado”.

                A vida parecia correr nesta mansidão lenta e vagarosa, até à hora que a morte as levasse para o céu. Mas um dia a revolução chegou e adicionou à vida destas mulheres,  a ansiedade e a preocupação pelas famílias que estavam nas ex-colónias, que já não viam há muitos anos, apesar de irmãos, cunhadas, sobrinhas e até um filho, pertencerem a estes familiares distantes e agora desprotegidos pela sorte, pelo destino, por Deus e pelo Portugal democrático .

 As noticias da televisão…

……as cartas que chegavam no correio,

                ----- o testemunho dos que vinham de férias e dos que regressavam em definitivo…..

                Os dias deixaram ser longos e doptados de fáceis rotinas e as muitas horas, converteram-se em tempo que passa rápido no relógio.

                Esta casa feita de muitas casas, dos Guerra e ou dos Fontes como quiserem identificar, com maçadoiro anexo, e aradeira na parede, encheu-se de repente com pessoas distribuídas por 4 gerações. A densidade populacional dentro destas paredes, colapsou. Colapsou no sentido de esgotar, de rebentar, de não caber mais. As duas senhoras idosas viram a sua casa de família a dar abrigo a mais 17 pessoas. As suas solidões pasmadas e serenas foram substituídas pelo encontro em pouco espaço de necessidades diferentes de cada um, e por tudo o que isso provocava: barulho, stress, falta de privacidade, falta de paciência, falta de móveis, falta de comida, falta de caminhos alternativos…

                Os quartos sobrelotaram, desdobraram-se as camas. A cozinha tinha 3 ou 4 fogões. As refeições serviam-se por turnas, pois não cabiam todos à mesa. A grande varanda tipo marquise passou a ser pequena e sitio de polémica na escolha do canal a ver, só havia dois, mas havia 2! e da cadeira mais confortável e melhor posicionada para ver televisão. Comprovou-se aqui neste espaço, como é vulgar, a relatividade; como o definitivo nem sempre o é, como o efémero se associa ao provisório. A vida das pessoas dá reviravoltas impensáveis. Tudo o que era rotineiro e monótono desaguou num rio de movimentos e de imprevisibilidades.

                As idas ao quarto de banho, não sei como se organizavam. Uns fumavam outros não. Uns eram velhos, outros eram crianças e vários nem uma coisa, nem outra. Uns gostariam de nabo na sopa, outros abominariam nabo e outros nem sequer comeriam a sopa. Refeições para 19, 19 pratos e 38 talheres para servir e para lavar, pão proporcional a 19, bacias para lavar roupa de 19, cobertores e lençóis para 19. !9 cumprimentos pela manhã, 19 despedidas no final da noite. Alguns nunca tinham vindo a Portugal, muito menos a Trás-os-Montes, nunca tinham sentido o rigor do inverno, nem o inferno do verão. Uns gostavam de isto, outros gostavam daquilo, uns dormiam tarde, outros dormiam cedo… As duas senhoras de provecta idade nunca tinham sentido tamanha barafunda dentro de portas e nas suas vidas. Penso que deixou de haver paciência para fazer crochet, deixou de haver tolerância para jogar à sueca,  deixou de haver vizinhos a ver a televisão, deixou haver a reza do terço no mês de Maio, deixou de haver …. E passou a haver várias pessoas a falar ao mesmo tempo, passou a haver um cruzar de vivências, passou a haver tolerância, respeito e revolta, nos conflitos… sim porque em todo lado há conflitos... passou a haver 19 escovas de dentes no lavatório do quarto de banho.

                Foi assim no verão de 1975. Um Portugal a rebentar pelas costuras, de lotação esgotada, quase a cairmos para o oceano atlântico. Foi esta capacidade inesgotável de acolher, que tornou possível a integração de meio milhão de pessoas, foi isto que nos distinguiu de outros países com problemáticas semelhantes.

                Os apoios do tal IARN eram reduzidos, apenas me lembra dos cobertores, de alguns litros de leite e uns queijos enlatados…. Valeu a vaca, valeu a horta, valeu o amor e amizade, valeu a capacidade e a vontade de partilhar.

                Os mais novos e mais capazes rapidamente tomaram outros rumos, os mais velhos permaneceram nesta casa feita de muitas casas, até morrer, devolvendo-se progressivamente a outras solidões. Viram cada um partir na sua vez na esperança e na resiliência da construção de uma nova vida e viram a incapacidade de outros, convertida em permanência por falta de alternativas, porque já eram velhos demais.

Hoje esta casa está só, porque todos partiram e as memórias desagregam-se como as folhas caducas do outono, que vão entrando pelas vidraças partidas.

In Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado - Anabela Quelhas

 
Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)
(sem acordo ortográfico)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Afinal onde é o meu lugar?

(.... e porque Justes também é o meu lugar entre muitos.)


Afinal onde é o meu lugar? 

            Por onde andava eu há 40 anos atrás???

            O dia 25 de abril de 74 apanhou-me a sair da adolescência, numa idade em que já era uma observadora atenta do que me rodeava, sensível aos ideais ligados à igualdade e à fraternidade multicoloridas, conscientemente contra o “orgulhosamente sós” de Salazar, mas ainda saudavelmente ingénua e cheia de sonhos.

            Como estava no hemisfério sul, só tive conhecimento da revolução no final do dia seguinte, muito em segredo antes do jantar, deixando-me de orelhas em pé, pois a referência segredada foi segredada entre adultos apenas. Pareceu-me nascer ali um entusiasmo cauteloso, que me fez ansiar pelos jornais do dia seguinte, para finalmente ver Spínola como grande herói, com fotografias de página inteira, remetendo Otelo para segundo plano e Salgueiro Maia para terceiríssimo e desvalorizado plano. Nessa altura não me apercebi disso, logicamente. Incomodava-me aquele monóculo e o pingalim que segurava na mão, desconfiando da personagem, que tais objectos transportava, parecendo-me mais um tirano do seculo XIX, do que um revolucionário do século XX. Aquele monóculo nada tinha de modernidade. O modelo era Che.  

            Nos dias que se seguiram, o monóculo virou moda e era simulado de forma irreverente por caricas de coca-cola, para posarmos nas fotografias de grupos de amigos adolescentes, crentes num futuro risonho e livre. O poster de Che Guevara colado nas paredes dos quartos, os discos clandestinos de Zeca Afonso, a ideia de um líder chamado Agostinho Neto, deixou de ser utopia e passou a ser tema de conversa constante, num processo de descoberta e aprendizagem rápida da democracia e da liberdade. Eu vivia com o BO (bairro operário) mesmo ao lado, suscitando muita conversa clandestina que o meu espirito curioso retinha, nos anos de adolescente. Contavam-se histórias… o cartão de visita da miscigenação urbana não colhia no meu lado, impulsionando diversas questões que eu ia organizando na cabeça, e que todos omitiam os esclarecimentos de que era ávida.

            Nada mais foi igual, a sociedade de Luanda entrou em sobressalto progressivo. A ideia doce e romântica de uma independência desejada e de um salto de liberdade para um futuro de todos, rapidamente se transformou numa contagem decrescente para a guerra civil, que tal como todas as guerras são injustas, sangrentas, desumanas, mutiladoras e trágicas. A descolonização rápida, necessária, mas pouco eficiente e nada assertiva, gerou meio milhão de retornados e refugiados, seres humanos desprotegidos, incapazes de se organizar e lutar pela sua permanência nos territórios independentes, que apenas tiveram como alternativa, a saída.

            Percebi, com 16 anos, que não tinha autonomia para tomar decisões sobre a minha vida e para a minha vida. Descobri que devia obedecer às decisões dos meus pais, mesmo que me desagradassem profundamente. Constatei que não era suficientemente crescida para viver sozinha na terra que me viu nascer, nem era suficientemente criança, para tudo me passar ao lado.

            Após poucos meses do 25 de abril, anunciaram-me que tinha duas horas para me despedir de Luanda, pois provavelmente iria ter um bilhete de ida para Lisboa, sem volta. Já passava das 18h30m.

            Não fui ouvida, nem achada!

            Trinta minutos foram para comprar dois agasalhos, um casaco de lã azul e uma camisola roxa, que por mero acaso e sorte havia numa loja junto ao local onde vivia. O resto foi a despedida. Despedi-me de lágrimas nos olhos, e vários nós na garganta, de uma cidade linda. Ao longo desse tempo, revi alguns momentos das minhas vivências frágeis e ingénuas, que farão eternamente parte de mim, retive no olhar sítios da minha terra de nascimento e de coração. Faltou-me o tempo para me despedir de amigos, para anotar contactos, para criar novas pontes de ligação para o futuro. Nem queria acreditar que não voltaria, que poderia nunca mais ver e estar com os meus amigos. Algo desconfortável e cada vez mais aterrador se instalou na minha racionalidade, tornando-me incapaz de tudo, excepto obedecer.

            Naquela noite, cresci de repente vários anos. Passei a ser adulta da noite para o dia seguinte, lutando entre duas lógicas, a minha lógica dos afectos e a lógica da descolonização, indiscutivelmente necessária, quanto a mim. Eu já entendia a democracia como meta maior, já tinha observado a digestão difícil de várias revoltas e era sensível ao conflito implícito da acção colonizadora.

            As luzes reflectidas na água negra da baía de Luanda, assumiram formas irregulares e esborratadas, resultantes da luz e das minhas lágrimas silenciosas, que teimavam correr-me pela face enquanto viajava no banco de trás do automóvel do meu pai em direcção ao aeroporto. Conferi cada rua, cada avenida, cada cruzamento… olhei pela última vez os sítios onde me encontrava com os meus amigos.

            No dia seguinte, passei a ser refugiada em terra europeia. A coincidência entre duas realidades: a minha realidade geográfica intersectada com a minha realidade afectiva, temperada pela revolta da não decisão. Entrei num mundo sem fortes referências para mim, onde decorria uma revolução com alguns contratempos pelo meio - eu, cheia de contradições e com novas e maiores responsabilidades, um pouco entregue a mim mesma. O rótulo de retornada e não progressista também se colou a mim em algumas situações menos felizes na integração na sociedade portuguesa. A desconfiança sobre a minha caderneta escolar que testemunhava bons resultados académicos, a desconfiança sobre os meus princípios e valores, a falta de solidariedade entre colegas de escola, e a ausência de camaradagem extra escola, premiaram-me em diversos momentos ao longo de 74/75, nas terras “do choupal até à lapa”.

            A ruptura violenta e traumática nos meus afectos, converteu-me em jovem adulta silenciosa, precoce e introvertida, com as sensibilidades adormecidas, ou talvez anestesiadas, como forma de me proteger das novas realidades. A racionalidade e as emoções, combateram-se num duelo entre uma aprendizagem ideológica e as orientações do politicamente correcto, potencializada através da pintura realizada em horas de ócio no Museu Machado de Castro, ao longo de alguns meses. 

            Alguns amigos foram reencontrados quase 30 anos depois, outros permanecerão sempre no fio da navalha, entre o estar ou não estar vivos.          Quem me desenhou o destino era graficamente inábil como tenho confirmado ao longo da vida.

            Costumo dizer que a minha vida afectiva é um puzzle incompleto, onde faltam algumas peças. Das peças recuperadas, nem todas me trouxeram alegria, pois os anos passaram, e as peças tornaram-se menos luminosas, com contornos desligados da minha história e por vezes contrários às minhas convicções.

            Os anos passaram, não voltei mais.

            Passei a ser assumidamente uma sem terra, ou contrariando e ampliando até ao absurdo, também poderei dizer que passei a ser uma cidadã do mundo, o que em termos práticos dá no mesmo. A lei diz que tenho nacionalidade portuguesa, o meu BI também, e eu continuo a sentir-me sem raízes nos vários locais onde já vivi, neste país. Vivo de sensações armazenadas, entre sombras de jacarandás e aromas de acácias rubras, desconfiguradas em terra fria de bravos navegadores da cauda da europa e uma vontade férrea de inovar com vistas para o futuro.

            Sou portuguesa sem ter nascido aqui e não sou angolana porque não vivo lá. Afinal sou de onde? Um paradoxo desta coisa de se ser eternamente de algum lugar, sem efectivamente o ser, mas que nos preenche os sonhos de todas as noites - a crise de identidade que muitos angolanos sentem e vivem, provavelmente entenderá o verdadeiro e profundo significado destas palavras rabiscadas a partir do 25 de abril de 74.

Afinal onde é o meu lugar? 

In” Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”

Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)

(sem acordo ortográfico)

Publicado em Notícias de Vila Real