quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Hermínio Carvalho


Hermínio Carvalho pintando Justes, certamente de memória articulada com alguma fotografia, a partir do Brasil.
Identifica-se o local - Fontes - e aqui fica o registo de algo que já não existe há mais de 50 anos, o tanque com as lavadeiras.
Hermínio Carvalho, um homem especial com vários passatempos, a pintura era um deles. Sem formação académica artística, um naif em estado puro que se aventurava a pintar memórias.
É visível a dificuldade em desenhar/pintar utilizando a perspectiva rigorosa.
Conheci-o na década de 70. Grande amigo do meu pai, e com um gosto comum, o cinema. Realizaram diversos filmes sobre Justes nos anos 40, que tive oportunidade de ver nessa época.  
  

sábado, 31 de janeiro de 2015

Estrada Nacional

Após várias horas a cair durante a noite. Este é o dia seguinte. Branco rasgado de linhas, que vai sumindo consoante bate o sol.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Neve

 
Santuário da Sra de Lurdes

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Cémitério


Para onde iremos todos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Foto de grupo de feminino

Foto obtida talvez em 1947 na inauguração da escola de Justes (????)
Da esquerda para a direita:
Celina Silva, Cecília Silva Vieira, Angelina Vieira, Adelaide Silva, Emília Correia (?), Otília Silva, Marcília Vieira, AlcinaVieira

No 2º plano - Orlanda Fontes (entre Otília e Marcília)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Eras tu, sem seres

Fotografia: Manuel Cosentino.
Eras tu, sem seres, parada e demente na linha do tempo. Sem orientação, sem rumo, parada sem bagagem no apeadeiro da vida, dando-nos a grande lição da vida, a aguardar pacientemente a morte anunciada.
Fomos-te perdendo, anos antes, em cada olhar que se despedia de nós, como uma paisagem que se some no horizonte. Fingíamos não perceber e fazíamos contigo, planos para o futuro, sabendo que o futuro já tinha ficada para trás há muito. Não tínhamos l...
ágrimas, apenas surpresa e ansiedade por aquilo que ainda te estaria reservado, apelando todos os dias para a nossa força interior, que muitas vezes claudicava vertiginosamente. O desespero de não se perceber a demência. O desespero de não termos armas para lutar por ti. O desespero de em cada noite te tornares ainda mais distante e desconhecida de nós.
O entusiasmo, a lucidez, a autonomia e a perseverança que te caracterizavam, abandonaram-te tão cedo, que as manhãs poderiam ser tardes, e as tardes, as noites, como se a linha do tempo se tivesse subitamente tornado quebrada, por determinação de ninguém.
Eras tu, sem seres, apaticamente estacionada no tempo, e nós, plateia forçada dessa despedida dolorosamente injusta.
Bj mãe


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Defunto falecido



O defunto falecido      

            Há histórias que originam verdadeiros filmes, pois são invulgares e com conteúdo forte, tornando-se bizarras quando analisadas com sentido crítico. No Portugal profundo não há só as histórias populares da tradição oral, também há outras histórias que possuem a dualidade do real e da fantasia, capazes de dar algum contentamento a um realizador neorrealista.

 

            Conheci uma figura impar, já desaparecida, que assinou como autor de algumas histórias bizarras, e que, contadas e recontadas na 1ª pessoa, lhe pertencem do princípio ao fim. Com personalidade aventureira, habituado às adversidades da vida, capaz de imensas proezas inimagináveis, sem os valores bem aferidos, disposto a correr riscos e com uma linguagem pejada de asneiras cabeludas constantes... ele contou que, num momento da sua vida, entre diversas profissões ocasionais que desempenhou, fazia com um automóvel citroen “boca de sapo” com 4 vitesses para a frente, viagens entre Portugal e França, servindo especialmente os emigrantes portugueses, transportando-os ou realizando serviços legais e ou ilegais, dependendo do ponto de vista e do preço. Não era zarolho, mas corria riscos na mesma, sem grande responsabilidade e sem medir as consequências para ele e muito menos para os outros. Penso que a ilegalidade era o fato que lhe assentava melhor.

            Um belo dia deparou-se com o desafio de transportar ilegalmente um defunto falecido numa bidonville parisiense para Portugal, já que os familiares não teriam dinheiro para a trasladação legal ou nem saberiam como faze-lo. O transporte de um falecido envolve responsabilidade médica e jurídica, um processo burocrático enorme, e ter a bolsa recheada de dinheiro para fazer face às despesas. Os familiares tinham poucos recursos, apesar do carro em 2ª ou 3ª mão guardado para vir de férias au Portugal.

            Ele dispôs-se a faze-lo sem grandes complicações, recebendo logo à partida a remuneração combinada para lhe dar ânimo para a viagem. Recolheram alguns francos pelos diversos filhos, e apostaram as “fichas” todas nesta solução.

            Recolheu o defunto que tinha falecido há menos de uma hora, vestiu-lhe um fato preto, sentou-o e amarrou-o ao banco do passageiro do carro dele (ainda não havia cintos de segurança), apertou-lhe o casaco, colocou-lhe un chapeau e a gravata e rematou com uns vérres bem escuros. Arrancou para Portugal, um Portugal que ainda não era Europa, com a garrafa de bagaço no porta-luvas e os cigarros 3 vintes no bolso da camisa. A família seguia noutra viatura, à derrière..

            O defunto falecido portou-se muito bem, parecendo dormir o caminho todo. Pararam para dormir um pouco. Pararam para fazer as refeições – o farnel do arroz de frango e umas sandes de fromage. O defunto não teve fome, manteve-se sereno, abstémio e sempre com os seus óculos escuros, que ora lhe filtravam o sol, ora lhe filtravam o luar…parecendo dormitar. O queixo descaia um pouco e foi preciso reforçar o visual com um cachecol. Numa das fronteiras, os carabineiros, rodearam o carro, espreitaram, pediram documentos, interrogaram e respeitaram o sono do senhor adormecido. A família em pânico dentro da sua viatura, visualizando todas estas operações, rezavam pai nossos e avé marias à Nossa Senhora de Fátima, para que o defunto não fosse convidado a sair….

            O motorista aventureiro quando recontava a história dizia que o pior estava para vir.

            Entraram au Portugal com sucesso e chegaram à aldeia lá para os lados de Montezinho, onde a urna e a cova no cemitério já estariam abertas e toda a papelada tratada, pois previa-se o odor insuportável do final da viagem. De facto o pior estaria para vir, e que seria retirar o defunto do veículo que o acolhera ainda quente e por mais de 30 horas de viagem.

            O post mortem, a viagem, as fronteiras e o fumo do permanente cigarro 3 vintes do autor desta proeza, endureceram-lhe os músculos, os tendões, o comportamento e até a alma. O homem era grande, vinha bem encaixado entre a cadeira e o tablier, teso como um presunto, sem maleabilidade alguma para se retirar do veículo.

            - Então Galdra? como resolveste le problèm?

            - Ca, ca ....lho. (ele era gago) titive que que lhe partir as pernas! Q’até deu jeito para o meterem na urna, senão ela não fechava com as pernas dobradas.

            No final todos os ouvintes riam por imaginar o Gualdra com um martelo a fazer o desencarceramento do defunto dorminhoco.

            - Olha lá e se os Carabineros tivessem percebido e mandassem sair o senhor do chapéu?.

            -Ca, cara .... lho eu já estava a penpensar, pupu..a que pariu eu eu fingia que quia buscar os dodocumentos ao cacarro queque  nos seguia e fugia que nunnunca mais ninguém meme apanhava!.

            Pobres dos familiares, que pagaram bem e seguiram confiantes este aventureiro, que nem pensaria duas vezes em deixa-los a todos em maus lençóis.

            Um cromo esta figura!

            Digam lá se não dava um filme????!!!!!

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In” Estórias de um Portugal profundo” Anabela Quelhas