terça-feira, 18 de agosto de 2015

sábado, 20 de junho de 2015

Alunos da professora Madalena Monteiro


Professora Maria Madalena Monteiro 1986/87?

De cima da esq para direita:
1.Isabel Nunes, 2.Ana, 3.Carla Matos, 4.Alexandra Vilela Alexandra, 5- Claudia e 6- Simone, 7. Ana Isabel, 8 Francisco.
Bruno Silva,Frederico Bento, Hugo Miguel Santos Silva, Hugo Emanuel Cardoso, Marco Conde, Licínio, Vitor Brites, Adelaide Gaspar ( laidinha) minha prima.

terça-feira, 16 de junho de 2015

OS DIVERSOS SÍTIOS ENCONTRAVAM-SE NESTE SÍTIO


 
 
OS DIVERSOS SÍTIOS ENCONTRAVAM-SE NESTE SÍTIO

 
Em qualquer hora que passe pelo largo de S. Pedro, encontro-o quase sempre vazio - vazio de pessoas, vazio de tarefas, vazio de vivências.

                É um dos casos em que a renovação do desenho urbano não resultou, sendo urgente repensá-la. Nem tudo o que se estuda de forma racional e de régua e esquadro, tem sucesso. Apresento-vos um buraco negro na renovação da cidade de Vila Real. Parecia que iria dar certo, mas não deu.

                Há uns anos, tínhamos um caos humanamente saudável, transformado num ponto nevrálgico da cidade, feito de imensas realidades que tentavam coexistir em simultâneo. Pessoas e automóveis misturavam-se a diversas horas do dia, com uma vitalidade própria das cidades que mexem. Foi assim durante muitos e muitos anos. Os automóveis, as entradas e saídas do culto religioso da igreja de S. Pedro, a passagem de crianças idas e vindas do infantário de S. Pedro e do colégio S. José, os aldeões que chegavam à cidade para comprar e vender produtos, as sementes, as couves para semear e as galinhas com pintainhos, a camioneta que custava a passar entre os peões e expelia uma fumarada brutal, as mulheres que carregavam a cesta à cabeça com arrecadas nas orelhas, os homens de varapau ou bengala que carregavam samarras de domingo, os negócios que se faziam em poucos minutos, enquanto não passava a “carreira” ou o “carro de praça”… as discussões entre os taxistas disputando clientes, os convites para ir beber um copo ao Pimentel e fazer uma boquinha com uma patanisca de bacalhau… realidades e vivências que vestiram esta praça e áreas adjacentes. De vez em quando, os bombeiros a querer sair com o carro, do lado mais nascente do espaço, tendo a saída bloqueada por toda aquela confusão, largavam a sirene para sobressaltar toda a gente.

                O largo de S. Pedro era um espaço urbano desorganizado e sujo, que servia de ponto de encontro entre pessoas, oriundas de diversos sítios. Os diversos sítios encontravam-se neste sítio. Era um espaço urbano com vida, vivido a várias velocidades, que se traduziam em sons variados, numa paleta urbana muito rica e característica. Era ali que se fazia a articulação entre a cidade e o campo. Zona de charneira entre realidades distintas e simultaneamente muito próximas (aglomerados populacionais localizados na periferia de Vila Real num raio de 20km), tendo como cenário de fundo, a cidade transmontana capital do distrito. Os de Sanguinhedo vinham à cidade e encontravam-se aqui com os que vinham da Samardã. Os de Fornelos perguntavam pelas uvas aos de Parada do Pinhão. Os de Justes faziam os possíveis por ignorar ostensivamente os de Lamares. Os da Bouça combinavam a ida à festa da Sra da Pena com os de Fortunho e os de Vale de Nogueiras compravam os panelos aos de Bisalhães. Os cães vadios passavam e mijavam na base das árvores, felizes por toda aquela animação, abanando o rabo e cheirando cada pormenor deste festival de odores… uma festa aqui, uma comida acoli. Havia pouco onde sentar… Era um quadro que tinha tanto de surreal, como de genial e que permanece certamente na memória colectiva.

                Este era o local que mais negócios testemunhou entre fulanos, cicranos e beltranos.  Um coração urbano, com um bom ritmo cardíaco, bem ginasticado com excessos, acordos e desacordos… mulheres havia que aqui chegavam de poupo na cabeça e saiam de permanente perfumada. Não havia multibanco, o dinheiro aparecia no meio das mãos, notas de escudos e réis, puxadas do bolso das calças ou das carteiras, resultante por vezes da venda de uma junta de bois, na feira do Sto António. Vendiam-se tremoços aos miúdos que choramingavam já cansados de um dia inteiro na Bila, com os sapatos a apertar. Vendiam-se flores pelos Santos. Anunciavam-se os figos, as tangerinas, as cerejas e as castanhas. Passava sempre um cego de Vale d’ Agodim a pedir esmola. Atirava-se lixo para o chão, pois cascas de tangerina e cascas de amendoins sempre foram biodegradáveis.

                Logicamente emergiam diversos problemas, como sempre acontece no caos. Tentou-se organizar o espaço urbano, corrigir erros, redefinir traçados de arruamentos, dividir o espaço de permanência de peões, do espaço de circulação automóvel, beneficiando largamente a área para a permanência dos cidadãos pedestres, melhorar pisos e requalificar espaços. Reordenou-se a circulação, condicionou-se o trânsito, retiraram-se os táxis e as camionetas, renovou-se a vedação. As árvores permaneceram, a igreja de Nasoni também, os espaços construídos, idem. Localizaram-se bancos exteriores e duas esculturas de significado inexpressivo. Tudo muito saudável, tudo muito clean!!!!!!

Parecia que seria melhor para todos, não parecia? Parecia ser esse o caminho natural para a resolução de problemas, parecia que iriamos dar um passo civilizacional…

                Os aviões costumam desaparecer nos buracos negros… A praça de S. Pedro converteu-se num buraco negro, pois toda esta palpitação urbana, emigrou para uma outra dimensão, sumiu-se, finou-se completamente. Resta uma praça quase deserta infestada em certos momentos pelos ratos voadores mais conhecidos por pombas, mais os carros estacionados em filinha na via de acesso condicionado. Os bancos existem, mas estão vazios. Os comerciantes viram os seus negócios a tornarem-se moribundos. O cego mudou de sítio ou aposentou-se (sei lá bem!!!), o puto ranhoso já não quer saber dos tremoços, agora prefere um tablet, a chiclete e calça sapatilhas nike, o Pimentel deixou de ser um tasco e a cidade vai-se esvaziando.

                Temos bancos modernos, temos duas esculturas amorfas modernaças, temos uma universidade sénior, temos imensa sombra pelo verão, temos tudo limpo de sujeira e de pessoas, temos os bombeiros sem barreiras e falta-nos tudo o resto que conferia a esta cidade uma poderosa identidade.

Publicado em NVR em 16/06/2015

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A romãzeira chorosa

 
LIVRO INFANTIL
 
AUTOR: António Caseiro Marques
ILUSTRAÇÃO: Anabela Quelhas
Local de compra: Notícias de Vila Real

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Memórias de Ofícios



Chamaram-lhe alugador de altifalantes - exposição Memórias de Ofícios, no Museu de Arquelogia, Vila Real 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Farrapada


A Farrapada

                O adeus à carne não se chamava Carnaval, mas sim Entrudo, porque na verdade significava a entrada na quaresma, aqui no Portugal de Trás-os-Montes, esquecido e afogado no mar de pedras também da serra do Palão… mistura entre o sagrado e o profano, iluminada por séculos de agradecimento à mãe natureza, enigmática, cíclica e pontual, e condicionada pelos rituais religiosos de temor a Deus, que oscilam entre o castigo e a dádiva.

                As origens que se atribuem a esta festa popular, perdem-se no tempo, mas aquela com que mais simpatizo e se articula melhor com o que vou recordar, será a de origem grega, apenas porque se honra Dionísio, deus do vinho, entidade que descobriu que o líquido extraído da uva, para além de ter um óptimo sabor, dá alegria imensa a quem o prova.

                A aldeia de Justes já teve um Entrudo a sério, castiço e original, profano e irreverente- pelo menos diferente de todos os que conheço.

                A “farrapada do Albano Tendeiro” saia à rua no dia do Entrudo, terça-feira de Carnaval. Era assim que se designava o grande grupo de mascarados, que saiam à rua assustando os mais pequenos e passando por diversas casas, solicitando/exigindo vinho, enchidos ou dinheiro. Muito vinho.

                A despedida da carne, ritual pagão, absorvido pelo cristianismo, ou o que se quiser chamar, em Justes manifestou-se durante muitos anos, de uma forma rural, quase primitiva e naife. Não era um grupo agressivo, mas as crianças mais pequenas assustavam-se com a invulgaridade com que se apresentavam – andrajosos, irreconhecíveis e perturbadores – diferentes de tudo que viam durante o ano, numa aldeia de gente trabalhadora e sossegada.

                Este grupo era presidido pelo estimado Albano Tendeiro, homem bem-disposto e temente a Deus. Fora do Entrudo e nos seus tempos que restavam da lavoura árdua e quase desumana, desempenhava funções de sacristão da igreja de Justes, assegurando grande parte do serviço religioso aos fiéis devotos da igreja.

                No dia do Entrudo, terça-feira gorda, Albano, divertia-se à grande e fazia divertir. Depois das tarefas caseiras estarem cumpridas, juntava os foliões numa das lojas da sua casa, localizada na Eira, ao lado dos porcos e das duas vacas que arrastavam o arado para rasgar a terra. Recolhiam a fuligem depositada na base das sertãs (frigideiras) ou de outros recipientes que iam ao lume (fogueira), e pintavam os rostos e pescoços com essa graxa negra, carbonada e opaca - mistura de carbono e gordura. Apostavam de seguida no contraste com o branco dos olhos e dos dentes, sendo estes últimos reforçados em tamanho com pedaços de cebola.

                O resultado era bizarro, estranho, assustador e supostamente pouco saboroso.

                O resto da fantasia era composta por tudo que fosse possível vestir, vestidos e calças velhas, lençóis ou cortinas em desuso, chapéus, paus, mocas ou bengalas, e muito especialmente guarda-chuvas estragados, de varetas torcidas e tecido esfarrapado, formando uma autêntica farrapada sem nexo, tangenciando o surreal, o tétrico e o terror, só comparado com o célebre triller de Michel Jackson, criado muitos anos depois.

                Saiam ao fim da tarde em grande grupo, já na hora do lusco-fusco e a sua passagem era anunciada por vários gritos de tonalidade UUUUUUUUUUUUUUUUhhhhhhhh, de caretos de palha que os antecediam ou outros aldeãos que os seguiam divertidos.

                A farrapada parava a cada porta de adega e o vinho servia-se em exagero, em copo, em púcaro, no almude ou diretamente da pipa. Bebiam fazendo renascer Dionísio, simbolizando a ressurreição da natureza e a fertilidade da terra. Homens toscos, de calos nas mãos, sofridos de trabalho de sol a sol, nunca conheceram Dionísio, nem sonhavam sequer que o seu conhecimento ascentral se mantinha intacto no seu código genético, aflorando no Entrudo.

                Era uma folia reservada apenas ao sexo masculino. As mulheres e as crianças, permaneciam em casa resguardando-se de previsíveis usos e abusos, provocados pelo estado etílico de quase todos.

                Bebiam, bebiam cada vez mais pela noite que escurecia as ruas, numa orgia farrapal e andrajosa, até a euforia atingir o seu auge, no enterro do Entrudo. Percorria todas as ruas da aldeia, acompanhado de alguma encenação critica, que satirizava publicamente situações que durante o ano andaram na boca do povo. Finalmente, após leitura do testamento, queimava-se um boneco que representava o entrudo, que tinha a característica de ser bem apetrechado ao nível do sexo e redondezas, e onde todos simulavam o choro e os gritos, carpindo a despedida do inverno.

1º encontro de Só Xassos