domingo, 27 de dezembro de 2020

Manuel Monteiro

 

O Manuel da Benvida, como era conhecido, para mim tio Manuel, veio de Parada do Pinhão para casar em Justes com Benvinda Palheiros Almeida, minha tia. Quando queriamos brincar com ele chamavamos-lhe carinhosamente Prosa de Parada, que ele aceitava de bom agrado.

Homem trabalhador, honesto, afável, simpático e bom dançarino. Para mim, era o elemento da minha família com mais paciência para as crianças, tendo-me proporcionado vivências inesquecíveis. Trabalhava de sol a sol e ao final da noite, ainda tinha paciência para brincar com os filhos e os sobrinhos. Nunca o vi mal disposto e nunca ouvi uma palavra desagradável dirigida a ninguém.

Vivia numa casa localizada perto da igreja, subdividida em duas habitações, a de cima onde vivia a minha avó e uma das filhas, e a de baixo, onde via o casal mencionado. Esta casa será sempre o principal espaço das minhas memórias. Curiosamente, eram visitados diariamente por vários elementos da família que ao entrarem nessa casa, se dividiam naturalmente da seguinte forma: em cima ficavam os adultos, onde se falava de coisas sérias e os mais novos, discretamente, retiravam-se para a escada de ligação à habitação de baixo, indo ter com o tio Manuel, para se divertirem. Se havia música, as sobrinhas sempre o desafiavam para um bailarico, porque ele dançava muito bem e alinhava connosco em muitas brincadeiras. A partir de certa altura tinha sempre uma garrafa de vinho fino ou jeropiga para brindarmos à vida e ao amor que nos unia.

Quando a vaca paria, chamáva-nos para discretamente espreitarmos para a loja (estábulo), de um sítio estratégico, que tinha para observação, para que a vaca não fosse perturbada. Quando as espigas de milho estavam no ponto, trazia e oferecia-nos espigas assadas, e quando as castanhas do caniço, já estavam secas eram a guloseima do serão. Sempre me permitia sentar-me nas chedas do carro de bois ou então ir dentro da dorna até à vindima. Acompanhava-nos nas festas e arraiais, ocupando na minha memória um lugar muito especial.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

o polvo


 

Em Trás-os- Montes, durante o Natal, o polvo disputa com o bacalahau, o principal lugar na mesa.

            «Há duas explicações para este microfenómeno natalício: a nobreza do alimento e a proximidade à fronteira», diz Albertino Gonçalves, professor de Sociologia na Universidade do Minho e especialista em cultura luso-galaica. «O polvo é um produto de alta qualidade e sempre esteve reservado para ocasiões especiais.»

            A tradição do polvo deve-se à nossa proximidade à Galiza, até porque os galegos consideram o rio  Douro é a sua fronteira a Sul.

             final dos anos trinta, depois da Guerra Civil Espanhola, o Estado Novo (regime de Salazar) quis ordenar o abastecimento alimentar do país para travar a fome. O polvo não entrava no menu do regime.

            «Salazar definiu zonas e produtos: cereais no Alentejo, sardinha nos portos pesqueiros, hortícolas e frutícolas no Oeste. E investiu seriamente na frota bacalhoeira, capaz de trazer das águas frias do Norte um ingrediente barato e altamente duradouro», «Nessas contas, o polvo, que vinha essencialmente de Espanha, não tinha lugar.»

            O bacalhau traduz assim o resultado de uma vontade politica, que não é acatada pelas populações fronteiriças, contrariando o menu do fascismo e praticando o contrabando do polvo, muito controlado pela PIDE.

            A proximidade da Galiza, principal centro mundial da pesca de polvo, fazia com que que ele estivesse presente no território nacional, há séculos e entrásse na dieta das gentes da fronteira,  muito antes do bacalhau, assim como em Trás--os-Montes integrando a identidade dos transmontanos.

            O polvo chegava seco em barricas e pendurava-se atrás da porta. Dois dias antes do Natal juntava-se o mulherio nas fontes e mergulhavam-no na água. Depois, era agarrá-lo pela cabeça e batê-lo numa pedra, pelo menos cinquenta vezes, para quebrar os seus filamentos fibrosos que endurecem ao cozer. A congelação permitiu quebrar os tendões do polvo sem esforço, mas antigamente era preciso fazê-lo à força dos braços das mulheres. As mulheres mais idosos de Justes certamente confirmarão.

            Era na mesa de Natal que o polvo se tornava povo. Naqueles tentáculos estava a sua identidade e a sua resistência.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Boas Festas


 

TRADIÇÕES PAGÃS

 

O solstício de Inverno (no Hemisfério Norte) é a noite mais longa do ano, o momento em que os dias começam de novo a crescer, uma vitória simbólica do Sol contra a escuridão. Acontece entre 21 e 22 de Dezembro.

Quando a gelo e a escuridão pareciam não ter fim, os antigos pagãos, nossos ascendentes,  recusavam-se a acreditar na morte do Sol. Em vez disso, juntavam-se para celebrar a luz e a natureza adormecida. Na noite mais longa do ano, quando a escuridão parecia não ter fim, homenageava-se a natureza e faziam-se oferendas aos deuses, pedindo para que o Inverno passasse depressa. Os seus abrigos eram decorados com ramos verdes, e faziam-se grandes fogueiras para afugentar a escuridão, à volta das quais era reunida a família, amigos e vizinhos. O fogo era sempre o elemento central, símbolo da luz e da própria vida.

Como não há festa sem comida, a ceia desta noite era melhorada com aquilo que a natureza dava. Bolinhos de abóbora, castanhas, maçâs, nozes, passas, pinhões, figos secos e… carne de javali ou veado.

Blessed Be (saudação pagã que significa sejam abençoados)