quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Memórias de Ofícios



Chamaram-lhe alugador de altifalantes - exposição Memórias de Ofícios, no Museu de Arquelogia, Vila Real 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Farrapada


A Farrapada

                O adeus à carne não se chamava Carnaval, mas sim Entrudo, porque na verdade significava a entrada na quaresma, aqui no Portugal de Trás-os-Montes, esquecido e afogado no mar de pedras também da serra do Palão… mistura entre o sagrado e o profano, iluminada por séculos de agradecimento à mãe natureza, enigmática, cíclica e pontual, e condicionada pelos rituais religiosos de temor a Deus, que oscilam entre o castigo e a dádiva.

                As origens que se atribuem a esta festa popular, perdem-se no tempo, mas aquela com que mais simpatizo e se articula melhor com o que vou recordar, será a de origem grega, apenas porque se honra Dionísio, deus do vinho, entidade que descobriu que o líquido extraído da uva, para além de ter um óptimo sabor, dá alegria imensa a quem o prova.

                A aldeia de Justes já teve um Entrudo a sério, castiço e original, profano e irreverente- pelo menos diferente de todos os que conheço.

                A “farrapada do Albano Tendeiro” saia à rua no dia do Entrudo, terça-feira de Carnaval. Era assim que se designava o grande grupo de mascarados, que saiam à rua assustando os mais pequenos e passando por diversas casas, solicitando/exigindo vinho, enchidos ou dinheiro. Muito vinho.

                A despedida da carne, ritual pagão, absorvido pelo cristianismo, ou o que se quiser chamar, em Justes manifestou-se durante muitos anos, de uma forma rural, quase primitiva e naife. Não era um grupo agressivo, mas as crianças mais pequenas assustavam-se com a invulgaridade com que se apresentavam – andrajosos, irreconhecíveis e perturbadores – diferentes de tudo que viam durante o ano, numa aldeia de gente trabalhadora e sossegada.

                Este grupo era presidido pelo estimado Albano Tendeiro, homem bem-disposto e temente a Deus. Fora do Entrudo e nos seus tempos que restavam da lavoura árdua e quase desumana, desempenhava funções de sacristão da igreja de Justes, assegurando grande parte do serviço religioso aos fiéis devotos da igreja.

                No dia do Entrudo, terça-feira gorda, Albano, divertia-se à grande e fazia divertir. Depois das tarefas caseiras estarem cumpridas, juntava os foliões numa das lojas da sua casa, localizada na Eira, ao lado dos porcos e das duas vacas que arrastavam o arado para rasgar a terra. Recolhiam a fuligem depositada na base das sertãs (frigideiras) ou de outros recipientes que iam ao lume (fogueira), e pintavam os rostos e pescoços com essa graxa negra, carbonada e opaca - mistura de carbono e gordura. Apostavam de seguida no contraste com o branco dos olhos e dos dentes, sendo estes últimos reforçados em tamanho com pedaços de cebola.

                O resultado era bizarro, estranho, assustador e supostamente pouco saboroso.

                O resto da fantasia era composta por tudo que fosse possível vestir, vestidos e calças velhas, lençóis ou cortinas em desuso, chapéus, paus, mocas ou bengalas, e muito especialmente guarda-chuvas estragados, de varetas torcidas e tecido esfarrapado, formando uma autêntica farrapada sem nexo, tangenciando o surreal, o tétrico e o terror, só comparado com o célebre triller de Michel Jackson, criado muitos anos depois.

                Saiam ao fim da tarde em grande grupo, já na hora do lusco-fusco e a sua passagem era anunciada por vários gritos de tonalidade UUUUUUUUUUUUUUUUhhhhhhhh, de caretos de palha que os antecediam ou outros aldeãos que os seguiam divertidos.

                A farrapada parava a cada porta de adega e o vinho servia-se em exagero, em copo, em púcaro, no almude ou diretamente da pipa. Bebiam fazendo renascer Dionísio, simbolizando a ressurreição da natureza e a fertilidade da terra. Homens toscos, de calos nas mãos, sofridos de trabalho de sol a sol, nunca conheceram Dionísio, nem sonhavam sequer que o seu conhecimento ascentral se mantinha intacto no seu código genético, aflorando no Entrudo.

                Era uma folia reservada apenas ao sexo masculino. As mulheres e as crianças, permaneciam em casa resguardando-se de previsíveis usos e abusos, provocados pelo estado etílico de quase todos.

                Bebiam, bebiam cada vez mais pela noite que escurecia as ruas, numa orgia farrapal e andrajosa, até a euforia atingir o seu auge, no enterro do Entrudo. Percorria todas as ruas da aldeia, acompanhado de alguma encenação critica, que satirizava publicamente situações que durante o ano andaram na boca do povo. Finalmente, após leitura do testamento, queimava-se um boneco que representava o entrudo, que tinha a característica de ser bem apetrechado ao nível do sexo e redondezas, e onde todos simulavam o choro e os gritos, carpindo a despedida do inverno.

1º encontro de Só Xassos


domingo, 15 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A tortura do bigodim



 


A tortura do bigodim

Um dia destes, estando a observar uma antiga fotografia e querendo identificar cada uma das mulheres ali fotografada, uma das minhas irmãs surpreendeu-me dizendo:

-Essa não pode ser fulana, porque já está de cabelo cortado!

O que é que isto tem de especial?

Aparentemente nada, para quem desconhece a transmontaneidade ainda bem próxima de nós.

É uma verdade que a forma e o corte do cabelo das mulheres caracterizam uma época.

A cultura judaico-cristã influenciou a mulher a usar o cabelo comprido. Nunca vi nenhuma figura religiosa de mise e Madalena usava longos cabelos. Só os anjos tinham os rostos emoldurados em ´suaves caracóis.

 “Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu” (livro de I Coríntios 11:15), mas este, esteve sempre associado aos conceitos de beleza, especialmente à feminina. Cabelos longos também podem expressar sedução (Afrodite deusa grega, cobria a sua nudez com os seus longos cabelos) ou força (a força de Sansão localizada na cabeleira). Os nazis rapavam os cabelos das mulheres judias…

Antes dos secadores de cabelo se vulgarizarem, logicamente era muito mais fácil manter uma boa higiene nos cabelos curtos, do que nos compridos. Mas era mais facil pentear cabelos compridos do que cabelos curtos, estes já exigem uma certa mestria no pente e na escova. Os cabelos compridos possuem vários recursos para se apresentarem bem e bonitos -  as tranças,  os poupos com trança ou sem ela, o rabo de cavalo, o cabelo enrolado na nuca, a banana… - que qualquer mulher sabe executar.

Foi assim que as mulheres transmontanas se apresentaram durante séculos, de poupo na cabeça, tendo já cabelos grisalhos ou não. Em crianças poderiam andar de guedelha solta, mas mal se tornavam mulheres, a guedelha era obrigatóriamente domada e apertada. A utilização de travessas decorativas, ganchos e passadores, enriqueciam essa arte de pentear os cabelos tornando-os ainda mais femininos e belos, no seu processo de domesticação.

A nova ordem mundial, pós segunda guerra, gerou transformações profundas na sociedade ocidental, entre as quais a condição da mulher – a mulher começa a trabalhar fora de casa durante a guerra, substituindo a mão de obra masculina e nunca mais abdicou desse direito e dessa boa prática.

Em simultâneo, na década de 40, a ondulação dos cabelos, a quente e a frio popularizou-se e passou a ser sinónimo de modernidade, destronando as tranças e os poupos milenares, mesmo no Portugal mais profundo. Não havia televisão, mas havia jornais e as novidades iam chegando a todo o lado.

A revolução dos cabelos das nossas mães e avós, foram determinantes no caminho de emancipação da mulher. As tranças feitas de cabelos lisos e sedosos, cortaram-se mediante sábias tesouradas realizadas nos famosos cabeleiros Bragança, Pimentel e Arcádia, localizados no centro da cidade, onde infestava o odor de químico corrosivo da ondulação permanente, ácido tioglicólico. As mulheres abandonavam pacientemente as suas cabeças aos ferros quentes, durante horas e horas de sofrimento, com as cabeleiras divididas aos quadradinhos, transformando os cabelos de espeto, em charmosas cabeleiras cheias de pequenos caracóis que duravam vários meses. Ao saírem do cabeleireiro, as mulheres vestiam um verdadeiro paradoxo: davam um passo em frente na sua emancipação – permanente na cabeça e trança cortada na carteira para guardar em casa como recordação – e em simultâneo passavam a ser dependentes do cabeleireiro, pois passados uns meses voltavam, para se submeterem de novo à tortura do bigodim.

Não sei se ficariam mais belas, as mulheres, mas as curtas /médias cabeleiras, davam-lhes um ar mais livre e independente, mais próximo de Rita Hayworth, Ingrid Bergman ou Judy Garland, que passavam no cinema.

Mas nada disto era pacífico, gerava alguns conflitos na família. Naquela época havia homens de chapéu na cabeça e com o machismo à flor da pele, que nunca escolheriam mulher para casar, que não tivesse o poupo no cima da cabeça. Tontices!
A diferença entre a mulher mais clássica e tradicional e a mulher moderna, cifrava-se com frequência apenas nesta panóplia do cabelo: com poupo ou sem poupo, índice que ressurgiu na análise duma velha fotografia.
Publicado em NVR
 

Poupo http://fashionstatement-mulherescomestilo.blogspot.pt/2012/07/o-poupo-do-cabelo-e-outros-pormenores.html

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Hermínio Carvalho


Hermínio Carvalho pintando Justes, certamente de memória articulada com alguma fotografia, a partir do Brasil.
Identifica-se o local - Fontes - e aqui fica o registo de algo que já não existe há mais de 50 anos, o tanque com as lavadeiras.
Hermínio Carvalho, um homem especial com vários passatempos, a pintura era um deles. Sem formação académica artística, um naif em estado puro que se aventurava a pintar memórias.
É visível a dificuldade em desenhar/pintar utilizando a perspectiva rigorosa.
 
Conheci-o na década de 70. Grande amigo do meu pai, e com um gosto comum, o cinema. Realizaram diversos filmes sobre Justes nos anos 40, que tive oportunidade de ver nessa época.