quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A tortura do bigodim






A tortura do bigodim

Um dia destes, estando a observar uma antiga fotografia e querendo identificar cada uma das mulheres ali fotografada, uma das minhas irmãs surpreendeu-me dizendo:

-Essa não pode ser fulana, porque já está de cabelo cortado!

O que é que isto tem de especial?

Aparentemente nada, para quem desconhece a transmontaneidade ainda bem próxima de nós.

É uma verdade que a forma e o corte do cabelo das mulheres caracterizam uma época.

A cultura judaico-cristã influenciou a mulher a usar o cabelo comprido. Nunca vi nenhuma figura religiosa de mise e Madalena usava longos cabelos. Só os anjos tinham os rostos emoldurados em ´suaves caracóis.

 “Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu” (livro de I Coríntios 11:15), mas este, esteve sempre associado aos conceitos de beleza, especialmente à feminina. Cabelos longos também podem expressar sedução (Afrodite deusa grega, cobria a sua nudez com os seus longos cabelos) ou força (a força de Sansão localizada na cabeleira). Os nazis rapavam os cabelos das mulheres judias…

Antes dos secadores de cabelo se vulgarizarem, logicamente era muito mais fácil manter uma boa higiene nos cabelos curtos, do que nos compridos. Mas era mais facil pentear cabelos compridos do que cabelos curtos, estes já exigem uma certa mestria no pente e na escova. Os cabelos compridos possuem vários recursos para se apresentarem bem e bonitos -  as tranças,  os poupos com trança ou sem ela, o rabo de cavalo, o cabelo enrolado na nuca, a banana… - que qualquer mulher sabe executar.

Foi assim que as mulheres transmontanas se apresentaram durante séculos, de poupo na cabeça, tendo já cabelos grisalhos ou não. Em crianças poderiam andar de guedelha solta, mas mal se tornavam mulheres, a guedelha era obrigatóriamente domada e apertada. A utilização de travessas decorativas, ganchos e passadores, enriqueciam essa arte de pentear os cabelos tornando-os ainda mais femininos e belos, no seu processo de domesticação.

A nova ordem mundial, pós segunda guerra, gerou transformações profundas na sociedade ocidental, entre as quais a condição da mulher – a mulher começa a trabalhar fora de casa durante a guerra, substituindo a mão de obra masculina e nunca mais abdicou desse direito e dessa boa prática.

Em simultâneo, na década de 40, a ondulação dos cabelos, a quente e a frio popularizou-se e passou a ser sinónimo de modernidade, destronando as tranças e os poupos milenares, mesmo no Portugal mais profundo. Não havia televisão, mas havia jornais e as novidades iam chegando a todo o lado.

A revolução dos cabelos das nossas mães e avós, foram determinantes no caminho de emancipação da mulher. As tranças feitas de cabelos lisos e sedosos, cortaram-se mediante sábias tesouradas realizadas nos famosos cabeleiros Bragança, Pimentel e Arcádia, localizados no centro da cidade, onde infestava o odor de químico corrosivo da ondulação permanente, ácido tioglicólico. As mulheres abandonavam pacientemente as suas cabeças aos ferros quentes, durante horas e horas de sofrimento, com as cabeleiras divididas aos quadradinhos, transformando os cabelos de espeto, em charmosas cabeleiras cheias de pequenos caracóis que duravam vários meses. Ao saírem do cabeleireiro, as mulheres vestiam um verdadeiro paradoxo: davam um passo em frente na sua emancipação – permanente na cabeça e trança cortada na carteira para guardar em casa como recordação – e em simultâneo passavam a ser dependentes do cabeleireiro, pois passados uns meses voltavam, para se submeterem de novo à tortura do bigodim.

Não sei se ficariam mais belas, as mulheres, mas as curtas /médias cabeleiras, davam-lhes um ar mais livre e independente, mais próximo de Rita Hayworth, Ingrid Bergman ou Judy Garland, que passavam no cinema.

Mas nada disto era pacífico, gerava alguns conflitos na família. Naquela época havia homens de chapéu na cabeça e com o machismo à flor da pele, que nunca escolheriam mulher para casar, que não tivesse o poupo no cima da cabeça. Tontices!
A diferença entre a mulher mais clássica e tradicional e a mulher moderna, cifrava-se com frequência apenas nesta panóplia do cabelo: com poupo ou sem poupo, índice que ressurgiu na análise duma velha fotografia.
Publicado em NVR

Poupo http://fashionstatement-mulherescomestilo.blogspot.pt/2012/07/o-poupo-do-cabelo-e-outros-pormenores.html

Sem comentários: